Avenging Initiative on Move
Há muito quadrinhos deixaram de ser infantis. Claro que alguns ainda persistem, mas as nuances e tons de cinza são tão presentes na caracterização atual da grande maioria que a necessidade de se fazer personagens cada vez mais tridimensionais e cada vez mais próximos ao público que os acompanham e fazê-los encarar o cenário mundial atual tornou-se obrigatório. Ninguém sabe realmente onde isso começou. Muitos afirmam que
Stan Lee é o culpado com a criação do
Quarteto Fantástico, num agora longínquo 1963. Outros que dizem que
Chris Claremont quem começou tudo, com um upgrade deveras complexo para o universo mutante que engloba os
X-Men, no final dos anos 70. Mas a minha opinião pessoal é que isso se deu realmente na necessidade de se adaptar de maneira satisfatória a arte dos quadrinhos para o mundo do cinema. Mais precisamente no ano 2000, quando trouxeram finalmente os mutantes da Marvel para o cinema. O tratamento de tridimensionalidade dado por
Bryan Singer aos personagens foi tão profundo, que a necessidade disso ser refletido na fonte se fez necessário. A marel pagou o preço e trouxe
Grant Morrison para roteirizar as aventuras dos dotados do fator X e a partir daí tudo ficou profundo, dúbio e sólido. Sagas como Civil War e Secret Invasion vêm traduzir essa inserção à fonte e a tradução para celulóide atinge o apice em
Iron Man.
Antes de começar com qualquer comentário a respeito do filme, venho pro via desta avisar que não vou segurar a língua (ou melhor, as palavras) e o texto tem sim
SPOILERS. Peço, encarecidamente, aos que não estão afim de saber do que rola no filme, que parem de ler e sigam para o texto posterior. Avisados? Vamos lá.
Tenho que tirar o chapéu para o trabalho de
Jon Fraveau, o cara conseguiu fazer uma das melhores adaptações de quadrinhos para o cinema (e não, isso não é demagogia). Sua nerdice exacerbada conseguiu manter um respeito fascinante pelos personagens. Todos são críveis no mundo real, mas em nada ferem suas personalidades quadrinescas. Mas comentando do início, o mérito do cara já começa por fazer um filme enxuto. Nada em Homen de Ferro é gratuito. Não existem enroladas. Não existem desenvolvimento de mil e uma subtramas paralelas, apesar de estar semeado tudo que engloba o passado do personagens nos quadrinhos, sua relação com as mulheres e o álcool, são o maior exemplo. Fraveau conta a história de Stark, e Stark only, e como ele afeta os que estão ao redor de seu universo. Os personagens, escolhidos a dedo, tem participação fundamental na trama, e em momento algum, nenhum deles soa forçado ou colocados por pressão de produtores. O fato dele ter pego, simplesmente quatro vencedores ou indicados ao Oscar e ter trabalhado-os de forma concisa, sem guerra de egos e, o mais importante, fazendo-os aceitar o papel que desempenham, por menor que seja, com uma dedicação digna de aplausos, se mostrou fantástica. O roteiro se concentra em contar a história de
Tony Stark, um playboy mimado, cheio de si mesmo por causa de seu intelecto espantoso. O cara usa o artifícil mas fácil (e por isso mesmo o que melhor se aplica) para contar a história de Stark, num belo resumo que precede a entrega de um prêmio (que o próprio não dá a mínima importância) no maior estilo celebridade. Em alguns segundos, Fraveau nos mostra o quão genial, pródigo, fascinante e mimado é Stark. Não que isso não tenha sido mostrado antes, nos primeiros minutos de filme, quando ele se mostra com suas piadinhas geniais, para um grupo de soldados no Afeganistão (mostrando que a ação é sim uma prioridade no filme, mas não é o todo). Um trabalho acima de qualquer repreensão. Genial, espirituoso e sincero. Espero que assim se mantenham os engravatados da Marvel, que agora assumem com este filme, a produção direta de suas adaptações.
Os personagens são um caso a parte. O já citado Tony Stark não seria nada se não tivesse sido encorporado em gênero, número e grau por
Robert Downey Jr. talvez tenha sido o seu passado tortuoso que o tenha feito entender tão bem Stark, mas o fato é que talvez nenhum outro ator tenha conseguido fazer uma caracterização tão fiel e ao mesmo tempo original em todas as adaptações cinematográficas para quadrinhos. E sim, eu aqui coloco à prova, também, a interpretação memorável de Christopher Reeve em Superman. O Stark de Downey Jr. é aquele também nos quadrinhos, com todas as suas pomposidades e motivações, todos os defeitos e qualidades, todo o fascinio, inclusive quando ele é um filho da puta egoísta. Sua dedicação a sua ciência, quando se isola de tudo e de todos, seus testes usando a si mesmo como cobaia e o natural jeito com o qual expõe sua genialidade é simplesmente fantástico. Interpretação memorável. A segunda a chamar a atenção é
Pepper Potts (sempre achei extremamente engraçado o fato de uma personagem se chamar “potes de pimenta, mas moving on), braço direito, esquerdo e o cérebro prático de Tony fora de seu mundo de fantasia.
Gwyneth Paltrol escolheu a dedo o retorno de seu hiato materno, desde que conseguiu fazer uma Potts contida, suave e apaixonada sem ser melosa ou melodramática. Com um senso de humor único (“yes, I do everything that mr. Stark asks me, including take the trash out”) e mostrando uma competência invejável, Paltrow faz de sua personagem um indivíduo essencial ao desenvolver da trama. Sua simbioticidade com Stark é tamanha, que ele precisa dela para completar seu trabalho, independente do que seja. Ela é a única em que ele confia, tanto que é a única das mulheres de seu universo que deixa tocar seu coração, sendo mostrado isso num ato analogamente literal.
James Rhodes é nos quadrinhos o mais próximo que Tony já chegou de ter uma esposa e aqui é interpretado fantasticamente por
Terrence Howard. O indicado ao Oscar conseguiu chamar a atenção num papel que praticamente é o link que livra Tony de problemas com o governo, mas mesmo com um papel minúsculo o cara manda bem, dá um show de construção de personagem com a veracidade e humanidade dada a Rhodes e ainda ganha o prêmio de crescer no próximo exemplar da série (mas é claro que o filme vai ter uma continuação). E por último, mas não menos importante, temos o
Obidiah Stane de
Jeff Bridges. Bridges deve ter se divertido bocados ao fazer um personagem mau, que facilmente cairia no caricato, mas que encontra sua veracidade na ganância exacerbada. O cara é mau e mau, sem meio termos e sem desvios. Não falta sobrancelha levantada, piadinhas sarcásticas ou back-stabing no heroizinho mimado em que o mundo gira ao redor. Nada que tire o brilho do herói, mas o suficiente para se manter na memória de quem assiste.
Simplesmente brilhante. Esse é o comentário final em relação a homem de ferro. Não, não vou dizer que é o melhor filme adaptado de quadrinhos que já assisti, mas chega próximo o suficiente para eu querer uma continuação imediata. As cenas de ação são contidas para mostrar um desenvolver mais crível dos personagens, mesmo assim elas são fuderosamente fantásticas. Os testes de vôo dos protótipos são hilários e empolgantes. Os testes com raios propulsores, fenomenais. E a cena da perseguição com os caças e para deixar a apreensão no limite, segurando no braço da cadeira mesmo. Mas o melhor são as referências. Caramba, verificar três protótipos da armadura já foi fantástico, mas ver a S.H.I.E.L.D. não somente citada no filme, mas tendo uma participação ativa, especialmente no final, foi fuderosamente orgásmico para um amante dos quadrinhos. Lamento aos que perderam a cena ao final dos créditos, quando um
Samuel L. Jackson, maquiado de forma a como foi caracterizado em The Ultimates, fazendo pouco de Stark após ele ter revelado publicamente que era o Homem de Ferro no final do filme (o que condiz fantasticamente com a personalidade exibicionista do personagem) e o convidando para fazer parte do projeto
Avengers - The Iniciative. Caracas, eu parecia ter 5 anos de idade saltando na cadeira tamanho o meu entusiasmo. Foi o primeiro passo para um universo cinematográfico conciso e fenomenal da Marvel. Fico esperando somente quando vai acontecer e torço para que seja o mais rápido possivel. O próximo passo será dado em
The Incredible Hulk é esperar pra ver. Enquando isso eu continuo analisando o filme numa segunda investida aos cinemas, gritando sempre internamente “
Avengers Assemble”. Será que um dia a concorrência aprende e faz filmes menos destoantes com seus personagens? É esperar.
"Let's face it, this is not the worst thing you've ever caught me doing" - Tony Stark to Pepper Potts in Iron Man